domingo, 22 de junho de 2008

Parto em casa: loucura ou retorno às raízes?

"Mesmo antes de ser concebido, esse bebê morava no seu coração. Ela costumava olhar adiante e sabia que, quando engravidasse, daria a seu filho experiências de uma intimidade deliciosa, imagens extasiantes e avanturas em bibliotecas povoadas de lembranças."

Com esses versos, de Laura Uplinger & Jack Bresnahan inicio o relato de uma experiência que considero privilegiada no curso "Ecologia do Parto" promovido por Heloísa Lessa. Com a generosidade de quem de fato defende o parto humanizado, Helô decidiu compartilhar sua biblioteca. O livro de poemas "De ventre em popa", que guarda o verso acima, é um de seus tesouros. Cada artigo que ela cuidadosamente seleciona e entrega nos encontros mensais é uma descoberta de como o visceral ato de dar a luz é, ou deveria ser, um assunto que interessa a todos.

Dentre os diversos autores selecionados por Heloísa Lessa, Michel Odent recebe atenção especial: ele é um dos convidados do curso. Na semana passada, tive a oportunidade de conhecer e ouvir esse profissional incrível que nos contou sobre a sua trajetória. No início de sua carreira, Odent atuou como cirurgião durante a guerra da Argélia e aprendeu as técnicas de cesariana horizontal. Na década de 60, ele atuou em uma maternidade francesa, ao lado de parteiras profissionais e junto com elas refletiu sobre a necessidade de modificação do ambiente do parto, introduzindo técnicas inovadoras como a piscina e o canto. A instalação de piscinas visava introduzir no local de nascimento o mesmo meio de vida onde saíram todas as formas de vida, enquanto que o canto resgatava as relações entre a garganta e a vagina que estão ligadas anatomicamente pelo mesmo canal. No filme abaixo é possível assistir alguns partos incríveis feitos na água:




Ao mudar-se para a Inglaterra, Odent passou a refletir e escrever suas experiências e a colaborar no parto de mulheres que optavam em ter seus filhos em casa. Esse trabalho, que ele desenvolve até hoje, consiste basicamente em distrair os pais no momento em que a mulher dá a luz ao lado de uma parteira experiente e capaz de permanecer calada enquanto a mãe e o bebê desempenham o seu papel de protagonistas.

De certo modo, a opção de Odent pelo parto em casa é uma resistência ao modelo hegemônico que prioriza intervenções como a insensibilidade do corpo materno através da peridural. A experiência vivida por ele e pelas parteiras, bem como o acesso à informação sobre o comportamento de outros mamíferos durante o parto permitiram que Odent defendesse o papel dos anestésicos naturais liberados pelo organismo ao dar a luz e a indução do comportamento maternal por essas substâncias. As idéias de Odent são contrárias ao modelo da maioria dos hospitais, mesmo aqueles em que o parto ocorre pelas vias naturais - o que é cada vez mais raro no Brasil. Elas estão respaldadas em pesquisas que associam o uso de substâncias anestésicas artificiais à inibição da contração uterina e a utilização de eletrodos de monitoramento com o aumento de intervenções como o uso de ventosas e do fórceps.

Para Odent, o parto e o nascimento são momentos privilegiados que podem conduzir às raízes do ser humano. Prova disso é que a mulher, ao dar à luz, caso não seja inibida, tende a simplificar seu vocabulário e a usar as palavras aprendidas na primeira infância. Além disso, a necessidade do recém-nascido de estabelecer um contado com a mãe antecede à fome. No entanto, nos atuais moldes hospitalares contemporâneos, muitas mulheres são impedidas de externar sentimentos que desencadeariam o papel de protagonistas no momento do parto e o mais grave: podem ser privadas de manter um contato pleno com seus filhos recém-nascidos.

Uma das idéias defendidas por Odent é o
período primal, que engloba o momento da concepção até o final do primeiro ano de vida. Para ele, durante esse período que é a gestação do cérebro emocional responsável pela maturidade afetiva, são construídas as estruturas cerebrais que garantem a sobrevivência da espécie. Do ponto de vista molecular, esse é o período em que o DNA, traduz as mais diversas proteínas que irão construir uma memória celular e tecidual: mais do que uma estocagem de informação, trata-se de uma trasformação da esturura vida. Odent defende que esse período deveria receber uma atenção especial de toda a sociedade porque tem reflexos culturais, memoriais e éticos. Para Odent, o curto e crítico período logo após o nascimento pode ser decisivo na capacidade das crianças desenvolverem a capacidade futura para amar. Nesse sentido, as intervenções realizadas durante esse período tem sido apontadas por diversas pesquisas como fatores de risco para disturbios sociais como a criminalidade e o suicídio. Parte dessas pesquisas podem ser acessadas nos sites: www.wombecology.com; www.birthworks.org/primalth; www.obstare.com e www.birthpsychology.com.

No livro "A cientificação do amor" Odent critica a enorme lacuna nas pesquisas científicas que tratam o tema amor e defende que a capacidade de amar e o respeito mútuo estão se tornando pré-requisito de sobrevivência individual e global na sociedade contemporânea. Por outro lado, ele lança mão de alguns experimentos desenvolvidos no campo da biologia como um reflexo para o comportamento humano. Um desses experimentos, desenvolvido por Eugene Morais com antílopes selvagens, apontam relações entre a sedação e a receptividade das mães aos filhotes: quando as fêmeas receberam baforadas de clorofórmio e éter passaram a recusar seus recém nascidos. Odent aponta também alguns experimentos que sugerem a existência de um período sensível no processo de formação do vínculo, como o relato de Konrad Lorenz que conseguiu ficar vinculado com patinhos após imitar o grasnar da mãe pata. Odent lança mão de diversos estudos para correlacionar as intervenções dos hospitais com a dificuldade das fêmeas de outros mamíferos no momento do parto e a perturbação causada pela separação precoce das mães e dos bebês. Uma dessas pesquisas, desenvolvidas nos anos 50 com macacos, separou as mães dos filhotes para amamentá-los com mamadeira. Para substituir as mães, foram utilizados dois tipos de manequins: um acolchoado e outro de ferro. Constatou-se que o principal fator de atração dos bebês macados não era o alimento, mas o aconchego. Ao trabalhar com exemplos comportamentais em outras espécies, Odent alerta que entre os mamíferos não humanos, os efeitos da intervenção são fáceis de revelar, numa escala individual, mas no homem os efeitos são diluídos pela cultura.

Considerando que o vínculo entre a mãe e bebê é o protótipo de todas as formas de amar, Odent combate os rituais que atrapalham o processo fisiológico do parto. Muitos desses rituais ainda são corriqueiros nas nossas maternidades como a pressa para cortar o cordão umbilical, o banho frio, o ato de esfregar o bebê para limpá-lo logo após o parto, o envolvimento do recém-nascido em panos apertados e o uso de ataduras. Odent também critica rituais com fogo, a perfuração da orelha e a abertura de portas em países frios. De todos os rituais descritos por Odent, o que me parece mais perverso é aquele que impede o primeiro contato do bebê com o peito materno. Minha filha, que contra a minha vontade nasceu de cesariana, foi retirada de mim e lançada imediatamente para o pediatra. Só depois do aval dele pude tê-la em meus braços, por um curto período de tempo. Depois disso, me apagaram. Por isso, não quero mais esse modelo hospitalar!

Nos próximos dias continuarei o meu relato. Espero que você tenha gostado. Se sim ou se não, comente!

3 comentários:

Marcele disse...

Oi Silvania!
Muito legal o seu relato. Esta é uma excelente maneira de registrar nossa experiência/vivência no trabalho com Helô e o grupo. Acredito que somos testemunhas de um movimento importante no Brasil. Talvez possamos tomar parte disso, de maneira ativa, brevemente. Quem sabe?
Eu, particularmente, fiquei muito preocupada com os dados fornecidos pelo Prof. Odent. Tenho replicado o manual do Ministério da Saúde em minhas aulas na graduação. Confesso que me faltava reflexão sobre os resultados dos exames e terapêuticas recomendadas... Agora estou preparando o próximo semestre e já sei que terei muito trabalho pele frente. Vou estudar tudo novamente, sem certeza de nada...
Os piores enganos são gerados pelas certezas, né?
Bj,
Marcele

Lais disse...

Oi Sil,
Seu blog está muito bacana!!
Este tema , em especial, eu acho muito interessante. Li bastante sobre isso antes do meu parto e confesso que vejo um pouco de exagero nessas técnicas de "retorno às raízes". Radicalismo é sempre prejudicial. O importante é a mãe curtir o momento e ser senhora do seu próprio parto, ou seja, participar ativamente e corajosamente.
Acho muito legal essa sua iniciativa de fazer esse curso.
Eu quero vê-la colocando isso em prática no seu próximo parto :) :)
Beijos,
Laís.

Luis Santos disse...

Silvania, cada palavra sua me faz ter a certeza de que estamos no camiho certo! O 2º pimpolho será dessa forma!

Bjs,
Marido