segunda-feira, 2 de junho de 2008

Aprendendo biologia no cinema

Olá pessoal, hoje quero partilhar com vocês a minha dissertação de mestrado: A Ciência e o cientista através da janela mágica – estudo de caso com o filme Sonhos Tropicais, apresentada no final do ano passado no Instituto Oswaldo Cruz.

Nesse trabalho, orientado pela professora Luisa Massarani, sugiro o uso de filmes como uma das possibilidades para tornar a aprendizagem de biologia mais instigante para o ensino médio. A escolha de um filme brasileiro foi proposital para, a partir da nossa realidade refletida na tela, estimular o interesse dos jovens pelos filmes brasileiros e pela ciência que é produzida no Brasil.

O filme Sonhos Tropicais, lançado em 2002 e dirigido por André Sturm, traz questões muito atuais, principalmente nesses dias em que integramos a arena da luta contra o dengue no Rio de Janeiro. Na tela, também acompanhamos um momento de intensa crise na saúde do Rio de Janeiro, mas o momento retratado é o início do século XIX. Nesse período, a cidade era apelidada de “Túmulo dos Estrangeiros” porque os tripulantes dos navios estrangeiros, com medo de epidemias como: febre amarela, peste bubônica e varíola, evitavam atracar no Brasil. Essa situação comprometia a economia do país, que nesta época estava concentrada na produção e exportação do café.

O filme mostra que para enfrentar os problemas da época, o cientista Oswaldo Cruz foi convidado para combater as principais epidemias que afastavam os investidores estrangeiros. O espectador pode perceber que, ao mesmo tempo, estava acontecendo uma intensa reforma arquitetônica em que os cortiços davam lugar aos palácios e avenidas. Para promover essas mudanças, parte da população foi violentamente desabrigada ou tiveram suas casas invadidas pelos agentes de saúde.

A insatisfação desse grupo de cidadãos e a organização dos opositores do então presidente Rodrigues Alves somaram forças para contestar as medidas de saneamento consideradas arbitrárias. O auge da crise foi a proposta da vacinação obrigatória que resultou no episódio conhecido como a “Revolta da Vacina”.

Apesar da relevância histórica e científica desse episódio, ele ainda é pouco estudado nas aulas de biologia do ensino médio, mas há uma lição significativa na Revolta da Vacina: a importância do envolvimento da população nas ações de saúde. A história dos cientistas brasileiros também ganha pouco espaço no ensino de biologia e por isso "Sonhos Tropicais" pode ser uma oportunidade para trazer essas discussões.

Além de representar a Revolta da Vacina, o filme narra o drama das polacas, jovens judias de origem polonesa, trazidas para o Brasil com uma falsa promessa de casamento. Longe de seus familiares e sem entender o idioma local, as polacas eram exploradas nos bordeis e rechaçadas pela sociedade.

Por que não fazer do ensino de biologia um espaço para refletir e combater ações que violam os direitos humanos como a exploração sexual de mulheres e crianças, tão comuns na nossa contemporaneidade?

Para saber como os jovens reagiriam às densas questões tratadas no filme, contamos com dois grupos colaboradores. O primeiro grupo, monitores no Museu da Vida, foi formado por jovens que vivem em situação de risco social e moram nas adjacências da Fundação Oswaldo Cruz. O segundo, grupo foi formado por alunos de uma escola privada: a escola Parque-Barra. Embora em situações econômico-social opostas, esses jovens tinham em comum o fato de estar cursando ou já haver cursado o ensino médio.

Nossos colaboradores assistiram ao filme, participaram de um grupo focal, onde foram estimulados a discutir os temas tratados no filme, de acordo com o interesse de cada grupo. Por exemplo, o grupo do Museu da Vida revelou intensa identificação com a situação de pobreza da população que se rebelava contra a vacina e com a precariedade dos serviços públicos oferecidos a essa população. Já o grupo da Escola-Parque mostrou-se sensibilizado com o drama das polacas. Para que pudessem se expressar individualmente, cada jovem preencheu um questionário. Além disso, realizamos um júri simulado a fim de que cada grupo vivenciasse uma imersão na história e avaliassem a responsabilidade dos cientistas em uma crise de saúde pública.

Toda essa participação foi gravada posteriormente transcrita na íntegra.

O conteúdo desse material foi analisado através de métodos qualitativos e exploratórios, por isso, os resultados obtidos com esses grupos de jovens não podem ser generalizados para a totalidade dos jovens brasileiros, mas nos permite apontar tendências sobre o uso do filme “Sonhos Tropicais” entre jovens.

Nossos resultados mostram que o filme promoveu uma discussão calorosa de temas como a história da ciência brasileira, em especial a vida e a obra de Oswaldo Cruz e a Revolta da Vacina e permitiu uma reflexão sobre o problema da exploração sexual no Brasil e no exterior. De acordo com o relato dos jovens, a participação na pesquisa favoreceu a apropriação de conhecimentos apresentados no filme e nas literaturas que disponibilizamos nos encontros que promovemos com os grupos.

Além do trabalho desenvolvido com esses jovens, a pesquisa traz na íntegra as entrevistas que realizamos com o escritor Moacyr Scliar, que é autor da obra original, com André Sturm, o diretor do filme Sonhos Tropicais, com Rosália Duarte que é pesquisadora da PUC e autora do livro “Cinema e educação” e com Felicia Krumholz, então coordenadora do projeto Cine-Escola do Grupo estação.

Essas entrevistas permitiram o mapeamento das motivações que levaram à criação da história e à adaptação do romance para as telas de cinema. Também permitiram que discutíssemos o trabalho de pessoas que militam para que a sala de cinema seja um espaço privilegiado de aprendizagem, tanto no ensino formal como no não formal.

De certo modo, partimos da gênese da narrativa “Sonhos Tropicais”, percorremos o seu trânsito do texto para a tela e observamos a percepção e a aprendizagem a partir dessa obra.

Motivações...

Uma das principais motivações para o desenvolvimento dessa pesquisa é que para mim, o cinema tem sido o entre-lugar da diversão e do aprendizado. Por isso, como professora de ciências e biologia, procuro estar no cinema com os meus alunos. Essa prática me aproximou de pessoas que fazem, exibem ou pesquisam cinema. Quando passei a atuar como assessora pedagógica de projetos que levam alunos ao cinema, observei que não era comum que os meus colegas professores de ciência e biologia freqüentassem com seus alunos uma sala de cinema, como acontece regularmente com profissionais que atuam no ensino de história, literatura e outras áreas. Esse problema pode ser um objeto para futuras investigações, mas já sabemos que a inclusão de uma disciplina ligada ao cinema nos cursos de formação dos professores é um diferencial nos cursos de formação dos professores de história e literatura. Entretanto, esse território pode ser compartilhado, afinal, existe uma gama de opções de filmes que representam a ciência e o cientista. Um dos anexos da minha dissertação traz uma coletânea com imagens e informações de 78 filmes que apresentam esse enfoque. Espero que outros educadores se interessem em analisar alguns desses filmes com seus alunos e que publiquem o relato dessas experiências.

O compartilhamento dos resultados do meu trabalho depende de espaços de divulgação, como esse. Por isso, agradeço a sua ateção, caro leitor. Aproveito a oportunidade para fazer ecoar um apelo aos coordenadores dos cursos que formam professores de ciências e biologia para que ofereçam aos futuros educadores a qualificação necessária para que se possa explorar a ciência e o cientista no cinema e em outras artes que ampliem o interesse dos jovens pela ciência.

Bem, é isso. Eu sou Silvania de Paula e falei com vocês sobre o uso de filmes para incrementar as aulas de biologia, tema da minha dissertação de mestrado, apresentada em 28 de setembro de 2007, na Fundação Oswaldo Cruz. Vale lembrar que o cinema encanta e desperta o interesse dos jovens. Por isso, sempre que for possível apresentar a ciência e o cientista através dessa janela mágica, a aprendizagem será ainda mais significativa e prazerosa. Até a próxima!

3 comentários:

letuzart disse...

Parabens!!!!!!!!!!!!!!!
adoreiiiiiiiiiiiiiiii

Marcello disse...

Muito bom conhecer esse tema, sou professor de Ciências e Biologia em Belém-PA e gostaria de saber mais sobre sua dissertação de mestrado

Anônimo disse...

Silvania, onde está a referencia da tua dissertação?
gostei muito e queria ler-la em completo. Iramaia