segunda-feira, 25 de julho de 2016

Material e Imaterial Didático - uma dinâmica sobre o material oculto na escol

Ao receber um convite para mediar uma reunião de professores, eu e meu colega resolvemos refletir sobre o material didático que nós e outros educadores usamos ou poderíamos usar para potencializar a aprendizagem. Para isso, decidimos usar uma brincadeira de amigo secreto, modalidade ladrão, que virou tradição naquela escola. Para isso selecionamos diversos materiais que poderiam ser úteis aos professores e embrulhamos todos esses objetos  individualmente. Cada professor teria que escolher um objeto e refletir como ele poderia ser usado para tornar as aulas instigastes. Caso ele não quisesse falar sobre o material selecionado, poderia trocar de objeto com o colega, mas cada um poderia ser "roubado" uma única vez. 

Veja alguns exemplos de materiais e o potencial apontado pelos professores presentes como possibilidades para incrementar a pratica pedagógica:


CD- pode conter diferentes ritmos para motivar o envolvimento nas aulas ou fazer dinâmicas que promovem o relaxamento ou o respeito ao outro. 

Fita métrica - poderia ser usada, por exemplo, durante o estudo dos números decimais, para medir a sala, e inúmeros objetos quando o objeto de estudo fosse a soma dos decimais ou os perímetros usando os decimais.

Boneco de um bicho preguiça  - poderia ser útil para falar de Darwin e a evolução dos bichos: lembrar a preguiça gigante do museu nacional.

Luva do sapinho - um professor de ciências poderia usar esse material quando trabalhasse o conceito de atrito ou quando ensinasse sobre os corpos dos anfíbios, quando a lã fosse usada como exemplo de pegador para discutir objetos que são condutores de calor,. Por causa da cor, foi lembrado que o objeto também seria útil para falar sobre daltonismo ótica, a mecânica do salto do sapo...

Revistinha do Chico Bento - poderia ser usada para introduzir um tema de ecologia ou  mesmo durante uma avaliação.É útil para refletir sobre a vida no campo, as invenções que parecem estranhas mas inspiram os cientistas e as narrativas que podem ser contrapostas em textos cientificos. 

Martelo - poderia ser útil, por exemplo, na construção do cenário ou de inúmeros objetos nas aulas de robótica.

Pedaço de rocha - pode ser usado para possibilitar uma cuidadosa análise das características que permitisse a classificação da rocha, na ocorrência territorial, idade da Rocha

Globo terrestre- pode ser usado para simplesmente promover o encantamento dos alunos, como o objeto tinha uma luz, ele poderia ser usado como calmante ou estratégia para o silencio

Tripé - recurso para o registro e novas possibilidades de obter a imagem que se deseja fotografar.

Crânio de jacaré -poderia ser, por exemplo, um dos elementos do livro paradidatico de francês: tesouro de guerra e para trabalhar o passado

Filme- asterix - como os alunos são muito receptivos para os filmes, esse poderia promover envolvimento, ampliar a ideia de monumento e trazer para o cotidiano alguns pontos da narrativa. Os filmes também são úteis para discutir valores ou situações que permita se colocar no lugar do outro e as vezes até uma identificação, inclusive ao se ver no diferente

Regador de plantas - poderia ser usado para fazer simulação de chuva, fenômenos, disciplina interativa

Celular - várias possibilidades: fotografia, música ou fonte de pesquisa - suporte de informações 

Livro didático - útil, por exemplo, em uma oficina de redação para explorar historias coletivas, uma situação problema, ou um determinado registro.


A dinâmica revelou que os materiais podem ser muito mais do que aparentam, depende de algo imaterial: a disposição e a criatividade do educador que trabalha com ele.  A intencionalidade ao escolher um material pode ser ampliada em sala de aula quando os sujeitos da aprendizagem atuam e transformam esse material em algo ainda mais significativo. É importante que a escola acredite e invista na autonomia do professor para que ele amplie sua visão e ouse surpreender com o novo. Esse novo pode estar o tempo todo na escola, mas ser usado de modo criativo. Os materiais didáticos não devem ser usados simplesmente para preencher o tempo, inibir o ócio e muito menos para substituir o professor, como acontece muito com o uso dos filmes nas escolas. Materiais didáticos podem ser encarados como tecnologia social que ampliam as possibilidades da construção coletiva do conhecimento em sala de aula. Um professor estimulado curte seu trabalho e pensa sobre ele, inclusive em algumas ocasiões de seu tempo livre e enxerga nos objetos à sua volta elementos propulsores de uma aprendizagem que pode ser prazerosa para todos.

Se você é professor, convido a você que olhe a sua volta e escolha um material que tenha perspectiva pedagógica, mesmo que você nunca tenha levado ele para a sala de aula. Pense em como você poderia explorá-lo e comente aqui a sua experiência!

domingo, 29 de maio de 2016

Separação de Corpos

Ontem vi um vídeo da Viviane Mosé em que ela dizia em tom de segredo algo que eu nunca tinha parado pra pensar: a palavra em si não significa nada, o que faz sentido é o acordo que se estabelece entre as pessoas que se falam. É isso: você pode dizer a mesma coisa pra uma pessoa que te admira e para uma pessoa que não te suporta e o que você disse pra pessoa que te admira chega como um alento, uma resposta uma luz, enquanto que aquilo que você fala para uma pessoa que não te suporta chega como escracho. O que diferencia essa interpretação é o acordo pré-estabelecido. 




A árdua tarefa de um advogado de família é promover esse acordo: acordo onde não existe mais a predisposição para diálogo. É muito triste pensar que não resta sequer o diálogo entre pessoas que um dia foram tão íntimas. As vezes a ponto de gerar outra vida que carrega o nariz do pai, a boca da mãe...




Eu gosto de pensar no casamento com o imaginário de uma só carne: para mim isso é absolutamente poético e revolucionário. Como pode dois seres tão diferentes se tornarem um só ser? Há casais que fazem isso com tamanha maestria que você não sabe onde começa um e onde termina o outro: não porque um subjuga ou domina o outro mas porque existe uma articulação perfeita entre as partes de um corpo que carrega duas cabeças pensantes capazes de negociar como um coração faz com suas cavidades. Os pares dessas cavidades não batem ao mesmo tempo: uma espera a outra - quando uma atua a outra relaxa e se deixa encher... Nenhuma das partes precisa dizer vai é sua vez: há um acordo ali estabelecendo a hora de trabalhar para esguichar a vida e o momento de relaxar e aproveitar o descanso. 




Do mesmo modo, na rotina do dia a dia, os acordos se estabelecem: eu lavo a louça e você cozinha; hoje vou usar uma roupa íntima especial e o outro entende: serei o melhor amante do mundo! Ou quem sabe um diz não ao filho e o outro não o desautoriza, ainda que não concorde: porque há ali um acordo, uma sincronia, uma perfeita articulação engendrada. Em outra situação você foi demitido, está arrasado, mas ouve: não se esqueça que eu estou aqui para o que der e vier! E assim, esses casais fundidos em uma só carne seguem e envelhecem juntos despertando admiração e outros sentimentos menos nobres.

Mas há situações em que uma das cabeças resolve que não quer mais fazer parte daquele corpo e isso pode ser extremamente traumático pra outra cabeça. Quanto mais intensa era a união, mais dolorida é complexa é a separação. Não é pelo faqueiro, nem pelo cachorro, nem pela fazenda e nem mesmo pelos filhos que os casais separados brigam, mas pela quebra do acordo que os unia. Na tentativa de restabelecer essa capacidade de diálogo, há advogados que conseguem reatar corpos dilacerados. Há os que ao menos conseguem repaginar os vínculos: amigos? Talvez nem tanto, mas há um respeito vindo à tona. Infelizmente há também os representantes da lei que querem incrementar  ainda mais os prejuízos. Para esses, quanto pior, melhor. Nesses casos, os filhos sofrem ainda mais. Ninguém se entende. Não há palavra que soe bem. E quando não há palavra, nem sintonia, nem respeito... O que sobra são restos de corpos que um dia formavam uma família.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

Captação via Lei Rouanet para o Anjo do Amor

Estamos firmemente empenhados no projeto CD, DVD e Livro O Fabuloso Presente do Anjo do Amor. Queremos contar ao mundo essa história porque acreditamos que o afeto fortalece a auto-estima, a imunidade e as relações humanas!  Uma das possibilidades de fazer esse sonho acontecer é através do incentivo fiscal. Por meio da Lei Rouanet eu e minha trupe sairemos em busca patrocínio em empresas interessadas em destinar até 4% do montante do imposto de renda para esse projeto.

Pessoas físicas que quiserem ser nossas patrocinadoras poderão direcionar até 6% de seus impostos. Após esse investimento, tanto as pessoas físicas como as jurídicas declaram a doação no imposto de renda e tem um desconto correspondente a 100% do valor . Ou seja, se você destinar mil reais para essa ação da Cantar e Contar, terá esse valor totalmente restituído. Assim, o contribuinte sabe para onde está indo parte de seus impostos e ainda conta com uma boa contrapartida que é o retorno no marketing do projeto. Esse tipo de propaganda é considerado mídia limpa porque promove a cultura sem gerar impactos ambientais.

Para enquadrar nosso projeto na Lei estamos inscritos no Novo Selic do MINC. O sistema gera um protocolo e em breve teremos o número de PRONAC. Mas se tivermos uma carta de intenção dos nossos futuros patrocinadores poderemos acelerar esse processo. Com o PRONAC na mão as pessoas e as empresas poderão emitir um recibo e as ações que viabilizarão a gravação do CD, a produção do DVD e a publicação do livro passarão a ser acompanhadas e fiscalizadas pelo Tribunal de Contas da União. Então, quer patrocinar o Anjo do Amor? Se sim, tudo o que eu preciso no momento é de uma carta de intenção de patrocínio citando o valor do seu incentivo: assim tocaremos esse barco. Será maravilhoso ter você na nossa tripulação!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

A importância da Pesquisa em um projeto cultural

Apresentar um projeto que usará recursos públicos exige profissionalismo e compromisso com o cumprimento de todas as etapas. Antes de um evento acontecer ou de um produto chegar ao mercado, muito tempo e trabalho foi ou deveria ter sido investido para evitar desperdícios ou investimentos inadequados. Investir em um cuidadoso trabalho de pesquisa pode fazer toda diferença na elaboração de uma proposta, na aprovação dela e principalmente na hora de executá-la. A recompensa é uma clareza que dará aos envolvidos um norte a seguir e uma maior segurança no caminho escolhido.

Foi sobre isso que a aula de Márcia Santos focou na última aula na Incubadora Cultural.
A pesquisa parte de um problema que orienta a proposta. Por exemplo, existe uma lacuna no estudo de um determinado compositor? Para responder essa pergunta, nós produtores culturais temos  que investigar. Nessa investigação iremos recolher uma série de informações pertinentes que norteará o projeto. O próximo passo é processar essas informações priorizando as fontes mais confiáveis. De posse das informações. Em alguns casos será necessário usar um sistema capaz de tratar as informações obtidas - por exemplo na aplicação de questionários em populações numerosas. Quanto maior a organização desse trabalho, mais tranquila será a análise dos dados.

A sensibilidade do pesquisador para perceber pequenas nuances na reação dos entrevistados pode fazer diferença na pesquisa. De grande valor para quem avalia o projeto cultural é a base teórica que ele traz. Os autores consultados e citados corretamente em um projeto cultural podem colaborar na aprovação de um projeto porque permite responder às perguntas formuladas pelo problema central da proposta, à luz de um sistema teórico.

Enfim, a pesquisa na pré-produção poderá imprimir confiabilidade na elaboração da justificativa do nosso projeto. Evidentemente nem sempre os dados obtidos na pesquisa se aplicarão ao nosso projeto, por isso é importante refletir no grau de generalização que eles carregam. Perguntar até que ponto pode-se esperar os mesmos resultados em outros locais ou noutras condições demonstra um senso crítico do trabalho.

Como exemplos de coletas de informação, Márcia Santos citou:

- Entrevistas - pode-se fazer pessoalmente, por e-mail, hangout ou outros.
- Bibliografia - em livros, artigos, sites...
- Observação
- Aplicação de questionário
- Análise documental
- Estudo de caso.

Dá trabalho? Sim. Mas quem disse que seria fácil a vida de produtor cultural?



domingo, 10 de abril de 2016

Planejar é preciso

Estou fazendo um curso de produção cultural na Incubadora Cultural - uma organização que se dedica a aperfeiçoar o trabalho dos que atuam com economia criativa. Na última aula de Márcia Santos ela começou me fazendo pensar se as decisões que tomamos na Cantar e Contar  são de fato estratégicas. Dedicar tempo para pensar nossas metas pode ser decisivo na qualidade do trabalho que desenvolvemos desde 2010. Compreendi que um planejamento contínuo permitirá reavaliar e aplicar as mudanças necessárias para melhorar o nosso desempenho.

Começo a semana listando as coisas a fazer, os recursos necessários e o tempo que cada ação demanda. Quantos projetos inacabados tenho no computador? Se eu investir uma hora organizando-os vou descobrir muitas coisas que podem ser úteis. Posso também organizar as cartas de anuência de meus colaboradores e tê-las nas mãos para não perder tempo quando o prazo de um edital for curto.

Confesso que organização não é meu forte embora eu reconheça que as vantagens de planejar são muitas. Minimizar os custos é uma delas, mas talvez a mais importante seja garantir um padrão elevado de trabalho. Ter as ações pensadas promove a segurança dos envolvidos e aumenta a produtividade do grupo. Planejar faz ganhar tempo - um bem tão precioso - promove uma sensação de controle inclusive na hora de delegar tarefas. Mas quero planejar em grupo para que o trabalho traduza o pensamento de cada integrante da Cantar e Contar e faça com que todos se sintam envolvidos e empoderados.

Não vejo a hora de reunir com minha equipe pra pensarmos juntos:

Onde queremos chegar?

O que fazer?

Como?

Quando?

Quanto?

Pra Quem?

Por quê?

Por quem?

Onde?

....

Depois de responder essas questões, temos um longo trabalho pela frente.

1. Diagnóstico - que situação queremos transformar?
2. Prognóstico - qual é o cenário futuro? Ele traz muitas oportunidades e/ou muitas ameaças?
3. Formulação - quais são as alternativas para promover essa transformação? Podemos escolher uma?
4. Implantação - esse é o momento para implantar as decisões tomadas.
5. Controle - vamos acompanhar criticamente o trabalho.
6. Avaliação - tudo correu como o planejado? Se não correu, o quais são as novas situações que queremos transformar? (voltei ao número 1)


Com disposição e muita vontade de seguir essa Ação Local e Cantar e Contar pelo mundo, vamos tentando driblar os gargalos, mantendo a flexibilidade para improvisar quando não for possível prever uma situação. Tão importante ou até mais do que o planejamento é a sintonia da equipe que resulta no encantamento que tanto buscamos nas apresentações que fazemos nos mais diversos ambientes, com crianças tão diferentes mas ao mesmo tempo absolutamente idênticas quando se trata do desejo de brincar e ser feliz. Se somarmos a nossa sintonia com esse planejamento estratégico ninguém segura o nosso sonho de viajar pelo mundo para contar a história "O Fabuloso Presente do Anjo do Amor"!




terça-feira, 6 de outubro de 2015

Mães-Meninas Menestréis

A criança é transformadora por natureza! Quem teve a sorte de ser transformada por um filhote de humano sabe bem o que quero dizer. Quantas ações que mudaram o mundo foram desencadeadas após a chegada de um bebê que trouxe novos desafios, como uma síndrome, por exemplo? Até algo corriqueiro como atravessar a rua passa a ser diferente quando ganhamos a consciência de que um ser frágil depende dos nossos cuidados, sobretudo se ele foi profundamente desejado. 
Isso acontece porque as crianças são generosas ao nos ensinar. Em geral elas gostam de cooperar, talvez porque saibam que atuar junto é muito mais instigante, embora os adultos insistam em colocar todas elas quietinhas: só assistindo. Quando eu e a minha equipe da Cantar e Contar compreendemos que se as crianças atuassem conosco encantaríamos muito mais, nos permitimos transformar e ganhamos identidade e potência. Hoje elas atuam o tempo todo: mas nem sempre foi assim.




Comecei como contadora de histórias em uma instituição que infelizmente não existe mais: a Fazer Arte. Minha missão era ler para aquelas três inesquecíveis turmas os livros que eu selecionava cuidadosamente para elas durante o intervalo das minhas aulas na Escola Parque. Para mim também foi um período de deliciosas descobertas porque não tive acesso à literatura infantil de qualidade durante a minha infância. Assim, me deparei com escritores e ilustradores fascinantes como Mariana Massarani, Frank Asch, Stephen Michael king e tantos outros. Um dia convidei meu vizinho, o músico e pesquisador Rogério Lopes para participar desse momento mágico. Ele alinhavou canções com as histórias que eu contava e ficou tão legal que decidimos escrever a proposta "Bichos para Cantar e Contar" no edital Prêmio Funarte de Concertos Didáticos 2010. E não é que fomos contemplados?! Nos juntamos à dois outros amigos inquietos de alma poética - a fotógrafa e arte-educadora Gabriella Massa e o ator e produtor Heder Braga e visitamos várias escolas com esse espetáculo. Foi durante esse tour que percebemos a força da interação das crianças. Aos poucos elas saíram do papel de platéia e passaram a ser protagonistas. Após cumprir o compromisso firmado no edital, tentamos, em vão, novos meios de seguir apresentando em praças e escolas públicas, passando então a concentrar nossa força em eventos e escolas particulares, reservando algumas apresentações voluntárias em locais de risco social.




Um desses territórios foi o Jardim Gramacho. A convite da Corrente pelo Bem visitei uma das áreas mais miseráveis do Rio de Janeiro. Eu pensava que já sabia o que me esperava porque estava familiarizada com o filme Lixo Extraordinário. Mas a quantidade de crianças e adolescentes grávidas introduzidas naquele cenário imprimiu em mim a sensação de ossos secos. Antes de iniciar a minha apresentação caminhei pelas casas e parei em uma delas onde uma criança de aproximadamente seis anos segurava um bebê aparentemente prematuro. Ao lado, a mãe que me lembrava a minha irmã mais nova aos treze anos sorria para mim com o mesmo olhar curioso da minha mana. Quando comecei o meu trabalho, notei que aquelas crianças não tinham  o mesmo desprendimento daquelas que eu costumava encontrar nas festas e escolas dos mais favorecidos. Era como se algo amarrasse as mãozinhas delas para trás. A maioria permaneceu de cabeça baixa por um bom tempo: mas nada que o nosso Dragão encantado não conseguisse levantar. Aos poucos o grupo foi se soltando e quando vi, a maioria se permitia, inclusive as crianças bem crescidas, como os voluntários.

No final da apresentação, perguntei se havia naquele lugar alguma pessoa que costumava brincar, contar histórias ou cantar com as crianças. Eu queria entregar para essa pessoa a bolsa que um dos nossos parceiros, o Ateliê Árvore Vermelha, havia preparado como um presente simbólico que estimulasse a continuidade daquele trabalho. Nela está escrito: "Carrego comigo um punhado de faz de conta".  Por mais que eu insistisse, ninguém se lembrava desse personagem. Quando mostrei a bolsinha, uma moça se prontificou com um enorme sorriso. Depois disso, eu não voltei ao local, não sei se ela faz o trabalho que se comprometeu, mas soube que as crianças perguntaram por mim quando a corrente passou por lá no mês seguinte.

Esse lugar e essas pessoas ficaram impregnados em minha mente. Tanto que agora busco meios para  desenvolver um trabalho que eu espero ser transformador. Quero voltar ao Jardim Gramacho para convencer aquelas meninas-mães à atuarem como contadoras de histórias e, se possível, futuras Menestréis que visitarão outros territórios para que as meninas-mães de lá façam o mesmo que nós fizemos. Com isso, certamente os filhos delas e de outras como elas, terão a chance de conhecer brincadeiras, literatura e músicas transformadoras. Quem sabe elas se encantarão e se identificarão com a história do Roberto Carlos: um menino negro, que enquanto adolescente foi rotulado de "irrecuperável" pelos seus educadores e hoje é considerado um dos dez melhores contadores de histórias do mundo? 

 Afinal, como lembra Manoel de Barros: "Os andarilhos, as crianças e os passarinhos têm o dom de ser poesia."







Significado de Menestrel

s.m. Na Idade Média, artista que, a serviço da corte ou autonomamente, trabalhava recitando ou cantando poemas em versos. (Fonte: dicio.com.br)

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O papel da família no encantamento pela leitura

Ninguém pode se orgulhar dos níveis do analfabetismo no Brasil, mas estamos tão acostumados a reclamar desse problema que poucos de nós nos perguntamos o que podemos fazer para mudar esse quadro. Eu suspeito que se as famílias assumissem esse problema com ternura e bravura, estaríamos em posição privilegiada no ranking de melhor rendimento escolar no mundo. Felizmente temos uma literatura de altíssima qualidade, inclusive de autores consagrados brasileiros e estrangeiros que já tiveram suas obras traduzidas. Esses livros podem ser uma vacina eficaz, não apenas para combater o analfabetismo, mas muitos outros problemas de aprendizagem que, muitas vezes se arrastam até a universidade.

Uma criança que lê ou tem quem leia para ela e tem acesso à histórias maravilhosas provavelmente será picada com a mosquinha do encantamento pela leitura que desencadeia um sintoma clássico: o desejo de investigar, descobrir, navegar, explorar coisas novas. Mas infelizmente poucas crianças têm acesso à literatura de qualidade e quando tem, nem sempre fazem bom uso dela. Então, imagina se os livros que já foram comprados e estão esquecidos em uma estante ou no porão, começassem a circular. Cirandas de livros na escola é uma boa iniciativa. Separar um cofrinho para adquirir bons livros e garantir aos pequenos uma valiosa biblioteca recheada de maravilhas da literatura infantil vale a pena. Mas pouco resultado se obtém nessas empreitadas se esse livro chegar em casa e não for degustado com prazer, de preferência em família.

A escola tem um papel inegável na alfabetização, mas nada se compara ao resultado quando esse trabalho conta com a parceria da família. Não há método de ensino que se compare com essas cenas:

  • um pai e a mãe aparecem sorrindo no quarto com um bom livro para ler quando o filho ou a filha já está na cama;
  • a avó coloca o neto ou a neta no colo para ler uma boa história; 
  • o avô acompanha com interesse a lição que a criança está fazendo e conta para ela algo instigante relacionado ao que está no dever;
  • um tio ou tia leva os sobrinhos para uma exposição e lê com as crianças algumas informações relevantes sobre as obras, 
  • um padrinho ou madrinha procuram em listas como essa  e escolhe algum livro para trazer de presente e chega assim, de surpresa, disposto a viajar na história; 
  • um vizinho traz um livro bom pra emprestar porque o filho leu e amou... 

Enfim, quanto todos se movem para garantir não apenas o acesso, mas a expedição ao que é narrado e ao mesmo tempo, encoraja a criança e o adolescente a criar novas histórias, recontar, misturar, remeter uma ideia dentro da outra... isso muda, talvez não o mundo, mas certamente essa criança porque dará a ela uma visão de mundo mais rica, ampliando suas conexões e permitindo que ela ganhe autonomia, auto confiança e uma bagagem privilegiada em um país com tantos analfabetos. Essa criança pode também adquirir noções de responsabilidade que despertará nela o desejo de compartilhar o que recebeu. Assim, ela passará a ser doadora de livros fascinantes, leitora em instituições onde há pessoas ávidas pelas histórias, enfim, ela estará fazendo novos amigos.

Você pode não ter uma família grande e generosa. Talvez tenha sérios problemas financeiros que impeçam a aquisição de bons livros com a frequência que você gostaria. Na sua cidade pode não haver biblioteca pública. Mas o que não pode é achar que por isso nada se pode fazer. Com criatividade, disposição e amigos a sua criança também vai ser picada por aquela mosquinha e vai se destacar.

Para crianças que não possuem uma situação financeira privilegiada, criamos o projeto "Livros Fascinantes" e estamos recebendo doações - atenção: apenas de livros fascinantes. Caso você queira participar dessa revolução, faça contato. Se puder, compartilhe esse texto e estimule as pessoas a assumirem pequenos gestos generosos, porem transformadores, como os descritos aqui.