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domingo, 22 de junho de 2008

Parto em casa: loucura ou retorno às raízes?

"Mesmo antes de ser concebido, esse bebê morava no seu coração. Ela costumava olhar adiante e sabia que, quando engravidasse, daria a seu filho experiências de uma intimidade deliciosa, imagens extasiantes e avanturas em bibliotecas povoadas de lembranças."

Com esses versos, de Laura Uplinger & Jack Bresnahan inicio o relato de uma experiência que considero privilegiada no curso "Ecologia do Parto" promovido por Heloísa Lessa. Com a generosidade de quem de fato defende o parto humanizado, Helô decidiu compartilhar sua biblioteca. O livro de poemas "De ventre em popa", que guarda o verso acima, é um de seus tesouros. Cada artigo que ela cuidadosamente seleciona e entrega nos encontros mensais é uma descoberta de como o visceral ato de dar a luz é, ou deveria ser, um assunto que interessa a todos.

Dentre os diversos autores selecionados por Heloísa Lessa, Michel Odent recebe atenção especial: ele é um dos convidados do curso. Na semana passada, tive a oportunidade de conhecer e ouvir esse profissional incrível que nos contou sobre a sua trajetória. No início de sua carreira, Odent atuou como cirurgião durante a guerra da Argélia e aprendeu as técnicas de cesariana horizontal. Na década de 60, ele atuou em uma maternidade francesa, ao lado de parteiras profissionais e junto com elas refletiu sobre a necessidade de modificação do ambiente do parto, introduzindo técnicas inovadoras como a piscina e o canto. A instalação de piscinas visava introduzir no local de nascimento o mesmo meio de vida onde saíram todas as formas de vida, enquanto que o canto resgatava as relações entre a garganta e a vagina que estão ligadas anatomicamente pelo mesmo canal. No filme abaixo é possível assistir alguns partos incríveis feitos na água:




Ao mudar-se para a Inglaterra, Odent passou a refletir e escrever suas experiências e a colaborar no parto de mulheres que optavam em ter seus filhos em casa. Esse trabalho, que ele desenvolve até hoje, consiste basicamente em distrair os pais no momento em que a mulher dá a luz ao lado de uma parteira experiente e capaz de permanecer calada enquanto a mãe e o bebê desempenham o seu papel de protagonistas.

De certo modo, a opção de Odent pelo parto em casa é uma resistência ao modelo hegemônico que prioriza intervenções como a insensibilidade do corpo materno através da peridural. A experiência vivida por ele e pelas parteiras, bem como o acesso à informação sobre o comportamento de outros mamíferos durante o parto permitiram que Odent defendesse o papel dos anestésicos naturais liberados pelo organismo ao dar a luz e a indução do comportamento maternal por essas substâncias. As idéias de Odent são contrárias ao modelo da maioria dos hospitais, mesmo aqueles em que o parto ocorre pelas vias naturais - o que é cada vez mais raro no Brasil. Elas estão respaldadas em pesquisas que associam o uso de substâncias anestésicas artificiais à inibição da contração uterina e a utilização de eletrodos de monitoramento com o aumento de intervenções como o uso de ventosas e do fórceps.

Para Odent, o parto e o nascimento são momentos privilegiados que podem conduzir às raízes do ser humano. Prova disso é que a mulher, ao dar à luz, caso não seja inibida, tende a simplificar seu vocabulário e a usar as palavras aprendidas na primeira infância. Além disso, a necessidade do recém-nascido de estabelecer um contado com a mãe antecede à fome. No entanto, nos atuais moldes hospitalares contemporâneos, muitas mulheres são impedidas de externar sentimentos que desencadeariam o papel de protagonistas no momento do parto e o mais grave: podem ser privadas de manter um contato pleno com seus filhos recém-nascidos.

Uma das idéias defendidas por Odent é o
período primal, que engloba o momento da concepção até o final do primeiro ano de vida. Para ele, durante esse período que é a gestação do cérebro emocional responsável pela maturidade afetiva, são construídas as estruturas cerebrais que garantem a sobrevivência da espécie. Do ponto de vista molecular, esse é o período em que o DNA, traduz as mais diversas proteínas que irão construir uma memória celular e tecidual: mais do que uma estocagem de informação, trata-se de uma trasformação da esturura vida. Odent defende que esse período deveria receber uma atenção especial de toda a sociedade porque tem reflexos culturais, memoriais e éticos. Para Odent, o curto e crítico período logo após o nascimento pode ser decisivo na capacidade das crianças desenvolverem a capacidade futura para amar. Nesse sentido, as intervenções realizadas durante esse período tem sido apontadas por diversas pesquisas como fatores de risco para disturbios sociais como a criminalidade e o suicídio. Parte dessas pesquisas podem ser acessadas nos sites: www.wombecology.com; www.birthworks.org/primalth; www.obstare.com e www.birthpsychology.com.

No livro "A cientificação do amor" Odent critica a enorme lacuna nas pesquisas científicas que tratam o tema amor e defende que a capacidade de amar e o respeito mútuo estão se tornando pré-requisito de sobrevivência individual e global na sociedade contemporânea. Por outro lado, ele lança mão de alguns experimentos desenvolvidos no campo da biologia como um reflexo para o comportamento humano. Um desses experimentos, desenvolvido por Eugene Morais com antílopes selvagens, apontam relações entre a sedação e a receptividade das mães aos filhotes: quando as fêmeas receberam baforadas de clorofórmio e éter passaram a recusar seus recém nascidos. Odent aponta também alguns experimentos que sugerem a existência de um período sensível no processo de formação do vínculo, como o relato de Konrad Lorenz que conseguiu ficar vinculado com patinhos após imitar o grasnar da mãe pata. Odent lança mão de diversos estudos para correlacionar as intervenções dos hospitais com a dificuldade das fêmeas de outros mamíferos no momento do parto e a perturbação causada pela separação precoce das mães e dos bebês. Uma dessas pesquisas, desenvolvidas nos anos 50 com macacos, separou as mães dos filhotes para amamentá-los com mamadeira. Para substituir as mães, foram utilizados dois tipos de manequins: um acolchoado e outro de ferro. Constatou-se que o principal fator de atração dos bebês macados não era o alimento, mas o aconchego. Ao trabalhar com exemplos comportamentais em outras espécies, Odent alerta que entre os mamíferos não humanos, os efeitos da intervenção são fáceis de revelar, numa escala individual, mas no homem os efeitos são diluídos pela cultura.

Considerando que o vínculo entre a mãe e bebê é o protótipo de todas as formas de amar, Odent combate os rituais que atrapalham o processo fisiológico do parto. Muitos desses rituais ainda são corriqueiros nas nossas maternidades como a pressa para cortar o cordão umbilical, o banho frio, o ato de esfregar o bebê para limpá-lo logo após o parto, o envolvimento do recém-nascido em panos apertados e o uso de ataduras. Odent também critica rituais com fogo, a perfuração da orelha e a abertura de portas em países frios. De todos os rituais descritos por Odent, o que me parece mais perverso é aquele que impede o primeiro contato do bebê com o peito materno. Minha filha, que contra a minha vontade nasceu de cesariana, foi retirada de mim e lançada imediatamente para o pediatra. Só depois do aval dele pude tê-la em meus braços, por um curto período de tempo. Depois disso, me apagaram. Por isso, não quero mais esse modelo hospitalar!

Nos próximos dias continuarei o meu relato. Espero que você tenha gostado. Se sim ou se não, comente!

quinta-feira, 9 de abril de 2009

As funções do orgasmo

esse é o nome do novo livro de Michel Odent que pretende apontar os caminhos para a transcedência. Foi um prazer ouvir Odent falando sobre esse tema durante a entrega do certificado do curso Ecologia do Parto no último dia 7. Para Odent, as descobertas científicas recentes reconhecem que a maior necessidade do bebê, assim que nasce, é essa e não outra: o cheiro, o toque, a pele e o olhar carinhoso da mãe. Michel lembra que todas as civilizações realizam ainda hoje rituais que dificultam esse contato íntimo primal e para isso utilizam justificativas como a necessidade de cortar o cordão umbilical ou inventam que o colostro pode fazer mal ao bebê. Foi só a partir dos anos 70 que os estudos demonstraram através de experiências controladas, as vantagens, a curto e longo prazo, do contato pele a pele entre a mãe e o bebê e evidenciaram que esse contato está intimamente ligado ao desenvolviomento da capacidade de amar.
Nesse novo trabalho, Odent aprofunda a discussão sobre a ação do coquetel de endorfina em três momentos de liberação plena: a ejeção do feto, o orgasmo e a ejeção do leite. Mas ele ressalta que o hormônio adrenalina é altamente inibidor dos hormônios do amor (endorfina e ocitocina). Não é por acaso que uma fêmea não costuma parir em frente ao seu predador ou não fazemos amor durante um terremoto ou ainda a produção de leite diminui em situação estressante.
Considerando que o coquetel do amor nos leva à um estado de transcedência - nos conduzindo para outro espaço e outro tempo - é evidente que a sociedade da razão rejeitou essa sensação ao longo da história, usando a culpa e a vergonha como instrumentos para nos manter longe desses estados de alteração emocional.
Mas se sabemos que a ocitocina é tão importante em momentos como o parto, o orgasmo e a amamentação, o que pode ser feito para facilitar a sua liberação? Para responder, Odent lembra que a ocitocina é um hormônio tímido e que o ambiente pode facilitar ou inibir a sua produção. É por isso que naturalmente os casais costumam se isolar quando querem fazer amor, isso também explica o porque a produção de leite é maior quando as vacas são ordenhadas por pessoas conhecidas. No entanto, o parto dos seres humanos se transformou em um comportamento oposto ao dos mamíferos não humanos, que evitam a todo custo serem observados durante o nascimento de seus filhotes. Odent lembra que esse modelo é recente, porque nas sociedades pré-culturais, as gestantes também se isolavam, buscando apenas a companhia de uma mulher sábia - geralmente a mãe, a sogra ou uma mulher mais velha da vila. O papel primordial dessas mulheres era proteger o espaço, impedindo que animais ou mesmo o marido se aproximasse. Na medida em que o parto é mais e mais socializado, o papel das parteiras passa a ser outro: controlar o parto, transmitindo crenças e procedimentos como o uso de ervas ou a manipulação do colo do útero.
Até a metade do século XX o parto e o nascimento eram coisas de mulher, até porque o número de médicos especialistas era reduzido. Quando esse profissional estava disponível, só era chamado em situações emergentes e geralemente realizava o fórceps como facilitador. Aliás, a história do fórceps é muito engraçada, mas ela fica para outro dia.
A partir daí, o crescimento do número de especialistas masculinos e a introdução de dogmas como a introdução da presença do pai na sala de parto e o aumento dos instrumentos tecnológicos consolidaram a masculinização da sala do parto. Outro elemento que contribuiu com a não-liberação da ocitocina foram algumas teorias científicas que influenciaram as principais escolas de parto natural, como o "Reflexo Condicionado" proposto por Pavlov (1849-1936). Pavlov defendia que a dor não é fisiológica e sim um reflexo. Conclusão: era necessário treinar as mulheres, recondicioná-las para que não sentissem dores. Assim, surgiu uma nova profissão: instrutor de parto. Aliás, Odent ironiza essa idéia no epílogo do livro, onde uma mulher tenta convencer seu noivo a seguir os conselhos de uma treinadora de noite núpcias. A comparação se deve ao fato de que Odent considerq que parto, amamentação e sexo são fisiologicamente similares. Já pedi para meu marido traduzir esse texto e depois mostro para vocês. É ótimo!
Odent critica o que ele chama de "epidemia dos vídeos" - alguns disponíveis na internet - que, com a pretenção de exibir um parto natural, são extremamente invasivos, com várias pessoas na sala de parto, a brochante câmera apontada, gente dando ordens o tempo todo: respira, força...
Por tudo isso, Odent afirma que na nossa contemporaneidade o número de mulheres que dão a luz ao bebê e a placenta é quase zero, uma vez que o coquetel que promove essa liberação plena depende de condições propícias e porque, por mais que busquem uma forma alternativa de parir, poucas mulheres têm a chance de encontrar paz nesse momento. Por isso, cresce o número de partos cirúrgicos e mesmo as mulheres que têm filhos por parto vaginal dependem cada vez mais de hormônios sintéticos.
É só lembrar de uma sala de parto e pensar: como as mulheres podem relaxar e liberar sua preciosa ocitocina? Assim, conclui Odent, a nossa inteligente espécie conseguiu inutilizar os hormônios do amor.

The Functions of the Orgasms - The highways to Transcedence, First published in Great Britain by Pinter & Martin Ltd 2009.

Bebês - Submarino.com.br

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Mães emocionalmente protegidas e bem alimentadas = Filhos inteligentes e saudáveis

Nos últimos dias estou transcrevendo os ensinamentos de Michel Odent que tive a oportunidade de filmar no último encontro do curso “Ecologia do Parto”. De modo muito claro ele fala com entusiasmo sobre diversos temas ligados à saúde emocional da gestante. Aliás, uma das coisas que ele propõe é que a saúde emocional das gestantes seja uma obsessão para quem acompanha as etapas do pré-natal. Para ele, aquele antigo pensamento de não contrariar as mulheres grávidas é essencial para promover a saúde a longo prazo. Ele se baseia em várias pesquisas que detectam uma íntima relação entre os problemas emocionais enfrentados durante a gravidez e o surgimento de doenças físicas e afetiva no filho. Para Odent e seus colaboradores, o risco de criminalidade e outros transtornos de comportamento é maior entre os filhos gerados enquanto a gestante vivenciava uma crise emocional.

A ação dos lipídeos na dieta das gestantes foi um dos pontos altos da palestra. Odent ensinou que do ponto de vista nutricional, os lipídeos podem ser considerados os elementos mais importantes, especialmente aqueles que fazem parte da família ômega 3. Para tornar esse assunto palatável à uma platéia de não-bioquímicos, Odent propôs uma dinâmica que transformou cada aluno em um átomo de carbono e a turma em uma longa cadeia de ácidos graxos – ora saturados, ora insaturados, demonstrando claramente o que é um ômega 3. Até então, eu desconhecia o nível de importância dessa molécula para o desenvolvimento do cérebro durante o período gestacional. Odent destacou que o principal lipídeo relacionado ao desenvolvimento cerebral é um tipo especial de ômega 3, denominado DHE, encontrado exclusivamente nos peixes de alto mar e no leite materno. Odent cita alguns estudos, realizados em diferentes partes do mundo, que relacionam o baixo consumo de alimentos de origem marinha ao aumento do risco de eclampsia severa. No Brasil a eclampsia é o maior fator de risco de mortalidade materna e para Odent, ela ocorre quando a placenta exige mais da mãe do que ela pode oferecer.

Para ressaltar a importância de uma dieta rica em peixes, Odent e seus colaboradores desenvolvem uma pesquisa no Rio de Janeiro, no hospital Alexander Fleming encorajando as gestantes na ingestão de sanduiches de sardinha. A população do Rio de Janeiro foi escolhida em função do baixo consumo de peixes e alto índice de eclampsia e pré-eclampsia. A sardinha é usada na pesquisa pelo baixo custo, por ser fonte de lipídeos necessários para o desenvolvimento cerebral do bebê e por ser um peixe pequeno, que não representa riscos de contaminação pela poluição marinha.

A simplicidade das ações propostas por Odent me faz pensar na urgência de que essas orientações cheguem a um número cada vez maior de pessoas agraciadas com a chegada de um bebê. Se você convive com uma gestante ou pretende engravidar, esse breve relato pode ser útil, mas sugiro a leitura dos livros de Michel Odent. Outra coisa que você pode fazer é facilitar a vida da mãe que amamenta, oferecendo apoio e incentivos. Seja criativo preparando alimentos gostosos a base de sardinha e principalmente, cuide com carinho do estado emocional dessa gestante para que no futuro a nossa população seja mais inteligente e saudável.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Um congresso onde o amor estará em foco



Será que as crianças, em seu período primal - da concepção aos dois primeiros anos de vida - inspiram cuidados especiais? Michel Odent defende que esse período é tão importante que uma crise emocional da gestante ou certos comportamentos como o afastamento da mãe durante o parto e a brusca interrupção da amamentação podem interferir na capacidade de amar e estão diretamente ligados aos altos índices de violência e  outros comportamentos de risco. Por isso Odent e outros especialistas como Michael Stark e Heloísa Lessa estarão em um congresso em Las Palmas, nas Ilhas Canárias discutindo as práticas adotadas por parteiras, obstetras e educadores.
 
Durante este congresso avanços técnicos e científicos serão apresentados para sugerir novos critérios de avaliação das práticas adotadas no período primal. Odent e seus colaboradores usarão dados da etologia, da bacteriologia, da epidemiologia e endocrinologia, para demonstrar cientificamente como os bebes humanos, ao nascer, necessitam da mãe e mostrar que as práticas adotadas por profissionais do parto devem facilitar e garantir esse primeiro contato. Embora não pareça novidade, muitas crenças e rituais estabelecido ao longo da história, inclusive nos hospitais, perturbam ou impedem a interação da mãe com seu rescém nascido. Tais procedimentos passaram a ser recorrentes a ponto de as pessoas não questioná-los, por mais que se afastem do natural. Por exemplo, porque os bebês saudáveis são levados para uma pessoa estranha medir, pesar ou limpar os bebês assim que nascem? Essas ações seriam mais importantes que deixar o bebê no colo de sua mãe para o primeiro contato visual? Que prejuízo pode haver quando esse contato visual entre mãe e filho não acontece? O desafio da conferência é que a ciência moderna tome para si a responsabilidade de reverter este tipo de procedimento tão comum nos ambientes do parto. Outro desafio é a implantação de novos cursos práticos de parteiras, para formar "mulheres sábias", profissionais preparadas para cuidar da gestante e interferir o mínimo possível no momento do parto.

Eu estou ávida para discutir métodos de educação para o parto e para o aleitamento materno. Se o parto natural e a amamentação  podem prevenir comportamentos de risco e considerando que a escola se compromete com a formação global de seus estudantes, como os educadores podem propor reflexões que facilitem, no futuro, o sucesso no trabalho de parto e na amamentação? Se fizermos isso, reduziremos o comportamentos de risco na escola? Há evidências que sim, mas como saber se não propusermos ações de curto, médio e longo prazos?

Recentemente fui motivada por Alexandre Klemperer a escrever um monólogo sobre aleitamento materno. Filmamos esse monólogo de ficção com duração de cerca de dois minutos e pretendo levar esse trabalho para a conferência. Se for possível, essa será a minha contribuição, inspirada nos ensinamentos de Heloísa Lessa e Michael Odent no curso Ecologia do Parto.

O encontro acontecerá de 26 a 28 de fevereiro quando médicos, parteiras, educadores e outros profissionais que se interessam pelo período primal, dos cinco continentes, estarão em Las Palmas, no Palacio de Congressos de Canarias, inspirados pela Deusa do Amor. Gostaria muito de estar entre eles - estamos em fase de captação de recursos - e se estiver, dividirei com vocês as discussões mais importantes.
Vale lembrar que Michael Odent ministra palestras e cursos pelo mundo ensinando sobre o hormônio do amor - a ocitocina. Ele destaca que esse hormônio é incompatível com a adrenalina e que por isso é preciso que a gestante seja protegida do medo e receba um tratamento amistoso e minimamente invasivo. Cabe aos profissionais repensarem sua prática, mas é papel de cada um de nós encarar o período primal com responsabilidade para que a mãe e a criança recebam cuidados especiais. Assim, a capacidade de amar, desenvolvida principalmente nesse período, não será ameaçada.

Texto adaptado de: http://www.wombecology.com/conference/

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Prazer em dose dupla

A sessão seguida de debate com o filme Parto Orgásmico (Orgasmic Birth Documentário. Estados Unidos, 2007. 87min) foi uma experiência excitante. Mais pelo debate, devo confessar! Não que o filme seja ruim, pelo contrário. Ele é dirigido por Debra Pascali-Bonaro, uma doula sonhadora que resolveu mostrar para as pessoas que existem outras opções além de um parto com inúmeras intervenções como costuma ocorrer nos hospítais.

As primeiras cenas do filme são realmente encantadoras: um casal namora no jardim, pouco antes do nascimento do seu filho, experiência essa que acontece no deck da piscina. Na maioria dos partos apresentados, as mulheres estão em casa, ao lado de seus companheiros, mas ao mesmo tempo, em outro mundo. Elas se comportam como quem vivencia um momento de êxtase sexual. Mas no filme também estão presentes as experiências hospitalares: a indução do parto e o monitoramento fetal são apresentados como práticas que elevam a incidência dos partos cirúrgicos. As entrevistas com esses pais que tiveram seus filhos nessas condições escancaram a submissão de quem tudo aceita em nome do bem estar da mulher e do bebê.

Entre um parto e outro, ouvimos diversos especialistas: educadores perinatais, obstetras, pesquisadores e parteiras. Enquanto eu ouvia essas profissionais e assistia a atuação delas (no filme, a maioria dos partos orgásmicos eram realizados por parteiras) fiquei me perguntando se a extinção dos cursos de parteiras não seria uma forma velada de corporativismo médico. Além disso,também me incomodou a ausência de Michel Odent no filme. Sobretudo nas cenas em que eu ouvia os especialistas transmitindo idéias que certamente aprenderam com ele.

O filme termina e a platéia que lotava a sala do Centro Cultural de Justiça Federal aplaude com entusiasmo. Em seguida, o debate que conta com as presenças da diretora, de Dafne, representando o Ministério da Saúde, de um representante da classe médica Ricardo Jones, de Heloisa Lessa, representando as enfermeiras obstétricas e da Fadinha, que representava as doulas. Evidentemente nenhuma parteira estava presente.

As apresentações dos membros que compunham a mesa foi breve: Debra apenas agradeceu por seu filme ter sido selecionado em um festival tão importante; Dafni falou das políticas públicas que contribuem para diminuir os casos de cesariana na rede pública; Ricardo defendeu que a humanização não pode ser uma "modinha da classe média"; Helô lembrou que as mulheres que se submetem aos partos em casa nos grandes centros são consideradas loucas e que o tratamento dado aos profissionais que fazem esse trabalho também é pejorativo e a Fadinha contou uma experiência recente com uma gestante que vivenciou um parto orgásmico.

Eu aproveitei aquele momento oportuno para esclarecer algumas coisas que me intrigaram durante a sessão. Para a Debra perguntei se a ausência de Odent no filme se devia ao fato de ultimamente ele defender que a presença do pai no momento do parto pode inibir a liberação da ocitocina, o hormônio do amor que apresenta um papel fundamental no momento do parto. Considerando que a presença do pai no filme é um dos eixos centrais do filme, é possível que a figura de de Odent destoasse daquele contexto. Entretanto, ela afirmou que Michel Odent foi entrevistado mas a qualidade das imagens não permitiram que elas fossem incluídas. Como não havia orçamento suficiente para repetir a entrevista, ele ficou de fora. Já para a Dafni perguntei sobre as ações do governo para reverter a extinção dos cursos de parteiras. Ela afirmou que o governo superou o modelo americano ao eliminar os cursos de parteira nos anos 70. Segundo ela, o Ministério da Saúde tem capacitado as parteiras tradicionais - é assim que as profissionais que não tem diploma de médico ou enfermeira obstétricas são chamadas.

Fiquei ruminando essas duas respostas. No caso de Debra, a falta de qualidade das imagens não explica pois haviam outras cenas que não podem ser consideradas cinematográficas e mesmo assim foram mantidas. E considerando a proposta do filme, a relevância das idéias prevalece sobre a qualidade técnica. Mas no caso das políticas públicas é absurdo perceber que o governo apoia as parteiras, desde que elas atuem nos rincões do Brasil, onde não é conveniente a atuação dos atuais detentores do poder de partejar. O que aconteceria a essas parteiras se elas resolvessem atuar nos grandes centros? Penso que se elas tivessem essa ousadia ampliaríamos a incidência de partos orgásmicos no Brasil!

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Aos Faustos e Faustas

Você já viu "A teta assustada"? Eu assisti ontem e nas primeiras cenas, quando a mãe da protagonista canta e conta para a filha como foi violentada, lembrei de Michael Odent alertando sobre o período primal, que engloba o momento da concepção até o final do primeiro ano de vida. Para ele, durante esse período que é a gestação do cérebro emocional responsável pela maturidade afetiva, são construídas as estruturas cerebrais que garantem a sobrevivência da espécie. Do ponto de vista molecular, esse é o período em que o DNA, traduz as mais diversas proteínas que irão construir uma memória celular e tecidual: mais do que uma estocagem de informação, trata-se de uma trasformação da esturura vida. Odent defende que esse período deveria receber uma atenção especial de toda a sociedade porque tem reflexos culturais, memoriais e éticos. Para Odent, o curto e crítico período logo após o nascimento pode ser decisivo na capacidade das crianças desenvolverem a capacidade futura para amar. Nesse sentido, as intervenções realizadas durante esse período tem sido apontadas por diversas pesquisas como fatores de risco para disturbios sociais como a criminalidade e o suicídio. Parte dessas pesquisas podem ser acessadas nos sites: www.wombecology.com; www.birthworks.org/primalth; www.obstare.com e www.birthpsychology.com.


Voltando ao filme, a protagonista Fausta é uma alegoria do medo que muitas mulheres, e homens, carregam após sofrerem ou testemunharem uma violência sexual.Essa cicatriz profunda pode se instaurar no olhar, no andar, no falar... mas as vezes é necessário muita sensibilidade para perceber o grito contido nessas almas infelizes.

A batata introduzida na vagina de Fausta é outra alegoria: do bloqueio sexual imposto na experiência do abuso. Romper essa barreira depende principalmente da vontade do abusado, mas isso pode levar tempo demais. O mundo está repleto de Faustas e Faustos. Nesse momento eles podem estar sozinhos ou juntos, na mesma cama.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Um curso muito especial

Fui aluna do primeiro curso, aprendi muito e conheci pessoas especiais, por isso recomendo:


Heloisa Lessa e Michel Odent convidam:

II Curso de atualização - A Ecologia do Parto e Nascimento

Objetivo: Oferecer evidências científicas atuais aos interessados em renovar / iniciar sua prática profissional acompanhando mulheres, durante a gravidez, parto e amamentação. O curso tem como base a fisiologia da mãe e do bebê e as conseqüências á longo prazo na saúde do individuo do que ocorre no Período Primal ( da concepção até o 1 ano de vida).

Aula Inaugural 7 de abril-Palestra com MICHEL ODENT

As funções dos Orgasmos. A auto-estrada para a transcendência.(Título do livro que acaba de ser lançado na Inglaterra )

Encontro mensal: Sexta: 17h ás 21h Sábado: 9h / 13 h

Revisão bibliográfica atual em português e inglês.

Trabalho corporal, dinâmicas e atividades interativas.

Gestos- Rua Conde Afonso Celso, 99 Jardim Botânico

Certificados fornecidos pelo: Primal Health Research Center

Investimento: Pagamento mensal (9 meses) R$ 270

Matricula: R$ 100 – a ser realizada durante entrevista e entrega de material.

Heloisa Lessa é enfermeira obstetra / parteira e mestre em Enfermagem. Atende a partos em casa planejados no Rio de Janeiro desde 1989. Tem experiência de trabalho com as parteiras tradicionais e a população indígena brasileira. É internacionalmente conhecida.

Michel Odent obstetra Frances conhecido pelos conceitos de sala de parto como casa e da utilização das piscinas de parto. Fundador do centro de pesquisa: Primal Health Research Center em Londres. Possui 12 livros publicados em 22 línguas e mais de 50 artigos científicos.

Inf. e programação completa: heloisa.lessa@terra.com.br

Tel: 21 22322445

terça-feira, 7 de abril de 2009

Novos parteiros?

Hoje é o dia da "formatura" da primeira turma do curso de Ecologia do Parto e eu não poderia deixar de registrar aqui a minha impressão como pertencente à esse grupo privilegiado. Como é típico acontecer na hora do parto, ao longo do curso, experimentei muitas delícias e algumas dores.

Foi delicioso ouvir Heloísa Lessa e Michel Odent falando de suas impressionantes experiências com as grávidas e trazendo ricas reflexões teóricas. Os convidados especiais também eram ótimos e as horas passavam sem que a gente se desse conta, tornando o grupo mais coeso a cada encontro. Mesmo sem provas, eu devorava os textos que a Helô gentilmente selecionava para cada aula e pensava no vazio que ficaria quando aqueles encontros não existissem, mas descobri que a memória nos resgata da saudade e nos traz à mente o que aprendemos ou recordamos: uma espécie de sonho que queremos continuar sonhando, mas ao mesmo tempo queremos acordar para transformá-lo em realidade.

Por outro lado, foi doloroso descobrir que o momento mais especial da minha vida, quando a minha filha nasceu, poderia ter sido menos traumático. Se os médicos lessem mais nesse país teríamos menos intervenções desnecessárias e danosas e talvez caissem os vergonhosos índices de partos cirúrgicos. Se o governo se preocupasse de fato com a saúde da mulher teríamos mais partos em casa - como ocorre na Holanda e na França - e as mulheres poderiam escolher onde e como querem parir. Se a sociedade buscasse e tivesse acesso à informação, descobriria que é a gestante saudável quem faz seu parto e que a única "tecnologia"que precisa para parir é a companhia de uma mulher sábia, como os franceses chamam as parteiras. Mas como formar essas parteiras? Michel Odent e Heloísa Lessa sabem. Agora vamos esperar que eles consigam resgatar os cursos práticos de parteira, extintos por uma política que privilegia o lucro em detrimento do interesse feminino.

domingo, 5 de abril de 2009

Novos parteiros?

Hoje é um dia muito especial: a "formatura"da primeira turma do curso de Ecologia do Parto e eu não poderia deixar de registrar aqui a minha impressão como pertencente à esse grupo privilegiado. Como é típico acontecer na hora do parto, ao longo do curso, experimentei muitas delícias e algumas dores.

Foi delicioso ouvir Heloísa Lessa e Michel Odent falando de suas impressionantes experiências com as grávidas e trazendo ricas reflexões teóricas. Os convidados especiais também eram ótimos e as horas passavam sem que a gente se desse conta, tornando o grupo mais coeso a cada encontro. Mesmo sem provas, eu devorava os textos que a Helô gentilmente selecionava para cada aula e pensava no vazio que ficaria quando aqueles encontros não existissem, mas descobri que a memória nos resgata da saudade e nos traz à mente o que aprendemos ou recordamos: uma espécie de sonho que queremos continuar sonhando, mas ao mesmo tempo queremos acordar para transformá-lo em realidade.

Por outro lado, foi doloroso descobrir que o momento mais especial da minha vida, quando a minha filha nasceu, poderia ter sido menos traumático. Se os médicos lessem mais nesse país teríamos menos intervenções desnecessárias e danosas e talvez caissem os vergonhosos índices de partos cirúrgicos. Se o governo se preocupasse de fato com a saúde da mulher teríamos mais partos em casa - como ocorre na Holanda e na França - e as mulheres poderiam escolher onde e como querem parir. Se a sociedade buscasse e tivesse acesso à informação, descobriria que é a gestante saudável quem faz seu parto e que a única "tecnologia"que precisa para parir é a companhia de uma mulher sábia, como os franceses chamam as parteiras. Mas como formar essas parteiras? Michel Odent e Heloísa Lessa sabem. Agora vamos esperar que eles consigam resgatar os cursos práticos de parteira, extintos por uma política que privilegia o lucro em detrimento do interesse feminino.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Como os Animais

Durante a abertura do Seminário que aconteceu no mês passado em Belo Horizonte: BH pelo parto Normal, Michel Odent defendeu que a prioridade hoje é MAMIFERIZAR o parto." Para construir essa tese ele se baseia em quatro princípios:

1º) A ocitocina é um hormônio "tímido" que desencadeia a contração uterina. Os fatores ambientais são determinantes na liberação desse hormônio: dificilmente ele pode ser liberado entre estranhos e observadores.

A ocitocina, também chamada de hormônio do amor, é importante nas relações sexuais, sendo que o par precisa liberar o hormônio para acontecer a relação. Assim como o sexo, o parto requer, normalmente, isolamento e intimidade, havendo apenas a presença dos envolvidos. Mesmo em relações grupais, as pessoas buscam um espaço em que se sintam seguras.

Instantes pós-parto a mulher libera o seu mais alto nível de ocitocina da vida. É o maior pico de hormônio do amor da vida da mulher. Nenhum orgasmo pode liberar quantidades tão altas! Essa grande liberação hormonal ajuda no não sangramento da placenta. A mãe precisa do bebê pele a pele, cheirá-lo e ter forte contato para liberar este pico vital de ocitocina. Essas informações servem àqueles que dão assistência ao parto para se descobrir quais as reais necessidades da mulher ao parir.

No Reino Animal, a regra é as fêmeas se recuem para um local em que fiquem isoladas e seguras sem que sejam observadas durante o parto. Nos grupos humanos mais remotos, as mulheres se isolavam para dar à luz. Nas comunidades as mulheres buscavam as "cabanas" de partos que ficavamem locais isolados onde todas davam à luz. Sempre houve a separação do grupo para parir, mas não muito longe de suas mães ou de outra mulher experiente que pudesse protegê-la de animais que pudessem estar por ali - em geral, não temos vergonha de nossas mães, por isso a ocitocina pode ser liberada na presença delas. Essas mães/mulheres são as precursoras das parteiras. Veio a socialização do parto. A parteira passou a existir e se tornou uma agente, uma guia da parturiente, e não uma observadora silenciosa. Muitas vezes elas agem de forma invasora, ensinando a mulher o que fazer. As mulheres passaram a dar à luz em ambientes domésticos. Ensinar a parir é falta de compreensão de como funciona a ocitocina. A mulher precisa apenas não se sentir observada e pressionada. Em toda a história houve a exclusão dos homens da cena de parto. Já no século XX houve a masculinização do cenário de parto, e em especial, na década de 70 entra o pai para a cena.

2º)O hormônio adrenalina impede a liberação da ocitocina em mamíferas. Adrenalina é o hormônio da urgência, que prepara o corpo para agir.

Para deixar a ocitocina fazer o seu trabalho de parto é necessário músculos relaxados e não energia, carboidratos e glicose. Quando uma mamífera se retira para parir e se sente segura, o hormônio do amor faz o seu trabalho. Entretanto, se ela percebe um perigo, um predador, imediatamente há liberação de adrenalina e seu trabalho de parto é eficientemente interrompido para que seu corpo seja capaz de fugir. Só então quando se sentir segura novamente, voltará ao trabalho de parto. A fisiologia seria ineficiente se ela tivesse que correr com o filhote descendo pela vagina, por isso pára tudo quando há sinal de perigo.


3º) Comparadas a outras mamíferas, as humanas têm partos difíceis e longos. Isso se dá pelo córtex desenvolvido que temos. O cérebro do intelecto, a área
cerebral responsável pela racionalidade, é uma deficiência durante o trabalho de parto. As inibições à ocitocina vêm desta área cerebral, tanto para o
sexo quanto para o parto. Para o bom parto, o córtex tem que parar de funcionar, relaxar. É por isso que muitas mulheres esquecem o que está acontecendo em sua volta durante o parto e são pouco polidas, ficam de quatro, se comportam como se estivessem em outro planeta. Tudo isso significa que o córtex diminuiu sua atividade.

Por isso não se deve estimular o córtex, o campo racional da mulher durante o parto.
Principais estímulos: linguagem. Dos mais fortes estímulos. O silêncio é o maior aliado do parto. Luz. Imagens visuais em geral. Por isso menos luz.

4º) Eliminar tudo que é humano: crenças e rituais que interferiram com o processo de parto. É preciso sair dos efeitos desses rituais. Um exemplo: a separação de mãe e filho em vários momentos da história da humanidade. Em tempos de não civilização, as mulheres pariam e o bebê era levado ao chefe/líder da tribo para uma preparação ou avaliação da criança para depois se integrar à comunidade. Em tempos atuais, o bebê nasce e vai para as mãos do pediatra que faz o mesmo que seus primórdios, avalia se o bebê pode viver na comunidade, e o prepara para tal. Em um momento da descoberta do parto natural, houve a conduta de passar o bebê ao pai assim que nasce para que eles iniciem um vínculo afetivo mais precocemente. Em todas as situações, em diferentes lugares e tempos, é conduta HUMANA separar mãe de bebê. Essa conduta deve ser dispensada, assim como tudo
que é humano.

Fechando a palestra: o neocórtex tão avançado que o homem desenvolveu torna o hormônio do amor inútil. E qual é o rumo desta sociedade?

* Adaptado de http://www.ibfan.org.br/noticias/noticia.php?id=329.

sábado, 1 de agosto de 2009

Negligência com as Grávidas: um problema nosso!


As reportagens sobre as grávidas que morreram vítimas da gripe A remetem-me às aulas de Michel Odent. Ele defende que a sociedade deveria ter como prioridade máxima a proteção das gestantes. Isso porque, segundo ele, o período primal - que começa na concepção e segue até o segundo ano de vida - é decisivo no desenvolvimento da capacidade de amar do sujeito. Imagine o que aconteceria com os índices de violência se conseguíssemos gerar cada vez mais pessoas com elevada capacidade de amar!

Na semana passada, estive péssima: passei vários dias gripada e na quinta-feira acordei com a cabeça estourando, uma tosse seca forte, dor no corpo e muita secreção: coriza e lágrima, além de febre. Como tinha acabado de chegar de Balneário Camburiú e lá, os argentinos estão por toda parte, fiquei preocupada e resolvi ir ao médico. Chegando no Copa Door, fomos prontamente mascarados e encaminhados para um anexo do hospital. A médica ouviu meu relato e avaliou que eu não estava com a gripe A, mesmo sem fazer o exame específico. Quando eu questionei, ela disse segundo o protocolo, apenas os doentes com sintomas críticos poderiam ser encaminhados para o exame. Eu ouvi espantada porque o que poderia ser mais crítico que tudo aquilo que eu estava sentindo? Mesmo assim, fui encaminhada para a área comum do hospital para fazer exames de raio x de face e tórax. Como esses exames deram normal e o médico me prescreveu novalgina e me mandou de volta para casa.

Eu ainda não estou 100%, mas sinto que o ciclo da doença está chegando ao fim. É provável que eu não esteja grávida, mas se eu estivesse, ninguém investigou essa hipótese ao me examinar no hospital. Se em hospital particular, com paciente esclarecida e questionadora o atendimento não primou pela certeza, imagine nas precárias situações da maioria dos hospitais públicos brasileiros! O relato das famílias das gestantes que morreram também mostram sinais de negligência nos hospitais onde elas foram atendidas. Quem será responsabilizado por essas vidas que foram perdidas em um momento tão importante? Agora, quem poderá amar esses filhos como suas mães amariam? Quem irá amamentar essas crianças? Quem cantará para elas? Quem acordará todas as noites e mesmo exausta poderá acalantar esses corpinhos frágeis? Certamente não são os profissionais que se limitam em seguir protocolos.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Grileiros do Parto

A tentativa de delimitar o parto como território exclusivo dos médicos, remete-me à figura dos grileiros que ocuparam terras devolutas na Amazônia e que recentemente foram agraciados com a posse dessas terras. O paralelo é inevitável, porque aprendi que antes do primeiro médico levar uma gestante para um hospital, os partos aconteciam em casa ou em qualquer outro local onde a mulher se sentisse confortavelmente segura e que o simples fato de levar a gestante para um hospital não aumentou a chances de sobrevivência da mulher e nem a do bebê e em alguns casos, expôs ambos a novos riscos. Por isso, consigo entender a resistência de algumas mulheres: parir no hospital, sobretudo para as mulheres que mantiveram as suas tradições culturais, é assustador.

Pesquisadores se empenham em ouvir os relatos de tratamentos que desconsideram as mulheres gestantes, mas nem sempre esses relatos são discutidos amplamete com a sociedade, até porque ferem o interesse dos poderosos. No dia do nascimento da minha filha, deitada em uma maca fria, ressentida por não ter sido considerado o meu plano de parto e estar prestes a ser submetida à um parto cirúrgico, desejei abraçar a minha obstetra. Talvez por não poder abraçar a minha mãe ou simplesmente por agradecimento à profissional que me assistia. Mas o meu ato foi retribuído por uma bronca e seguido por uma correria para a troca de avental e luvas. Em silêncio e sem graça por eu ter "contaminado" a minha médica, fiquei pensando que nem de longe esse tratamento frio e asseptico era o que eu esperava receber no momento mais especial da minha vida: a chegada da minha filha. Por isso e por tudo o que aprendi com Michel Odent e meus mestres/colegas do curso Ecologia do Parto, invejo, com toda a minha força, as mulheres que pariram ao lado de profissionais sensíveis na Casa de Parto de Realengo.

A Vigilância Sanitária, como órgão promotor da saúde, deveria estar mais preocupada em garantir a diminuição da incidência de partos cirúrgicos e exigir que a sala de parto seja um ambiente relaxante ao ponto de diminuir ou dispensar a utilização de drogas na hora do parto e que os profissionais tivessem o compromisso de favorecer o vínculo entre a mãe e o bebê. Se essa "Vigilância" mobilizasse a nossa sociedade, inúmeros profissionais, médicos inclusive, estariam, agora, com as barbas de molho.