quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Professor não é Babá!

Gosto de uma música do Raul que diz assim: "Eu perdi o meu medo, o meu medo, o meu medo da chuva". Ela poderia ser usada como fundo musical de uma cena pouco comum: quando o educador tem a coragem de dizer "Não! Eu não compactuo com esse modo de educar e por isso eu me demito". Ao longo dessa última década, assisti colegas professores adoecendo de ansiedade e para mim essa é uma pequena mostra de como a profissão que eu escolhi e amo representa um potencial risco ao mal do século: a depressão.

O psicanalista César Ibrahim Mussi me ensinou recentemente que a função do educador é apresentar o aluno à condição de desamparo, em outras palavras: professor não é aquele que mima. César defende que a árdua tarefa de dizer não e remeter ao aluno à incerteza é fundamental para preparar o sujeito para a vida. Se queremos "DES-ENVOLVER" o nosso educando, é preciso remover a proteção, o estado de "conforto" e remeter o aprendiz a um novo patamar onde ele busca ativamente o conhecimento ao invés de esperar por migalhas de informações como um pobre pássaro depenado que fica passivamente esperando, de boca aberta, em seu confortável ninho.

É preciso coragem para lutar contra a pulsão de morte configurada na tendência à paralisia típica das instituições de pseudo-ensino que, por medo de perder seus alunos, transformam seus mestres num bandos de babás. Os pais precisam de uma boa dose de astúcia para identificar e fugir das escolas que prometem demais: a NÃO garantia é pressuposto da educação. Por isso não dá para acreditar nas propostas que se vinculam ao temor do desamparo e não estabelecem responsabilidades ao educando. Tenho pena dos alunos mimados que não aprenderam a enfrentar a frustração e sucumbem ao medo na hora de enfrentar os desafios da vida. Esses que passam ano após ano sem aprender porque não precisaram se comprometer e assumir uma posição ativa na escola. Seus mestres, por medo, não enfrentam os problemas da falta de respeito e de compromisso. Mais preocupados com o mísero salário no final do mês, não apenas aceitam, mas com permissividade movem o moinho do despotismo.

Dignidade para o educador é admitir a sua própria miséria e condicionar a sua gestão à uma constante luta contra a inércia: não dá para aceitar aluno dormindo, brincando, brigando, exigindo prova com consulta... Des-envolver é um poderoso exercício para enfrentar a própria frustração que contagia os pares e os educandos. Isso me faz lembrar de outra música: Todos Juntos. Lembra dela? Se sim ou se não, sugiro que veja:


7 comentários:

Giz disse...

Querida Mestra,
Sempre existe um lado bom no todo ruim e vice-versa.
Adorei conhecê-la. Conviver com você neste breve período de tempo, foi um aprendizado. Conhecer suas idéias, sua inteligência, sua luta por uma educação decente e justa, sua filha(através dos videos do you tube!)e sua história foram muito importante para mim.
O medo da chuva nos paralisa. É preciso ter coragem para deixar se molhar e deixar de ser pedra.
Ao esbarrar pelas esquinas da vida com pessoas como você, pró-ativas, sensatas e acima de tudo inteligentes,temos certeza de que a tempestade que se aproxima é apenas uma fase. Porque toda e qualquer tempestade, traz destruição – mas ao mesmo tempo molha os campos, e a sabedoria do céu desce junto com a sua chuva. Como toda e qualquer tempestade, ela deve passar. Quanto mais violenta, mais rápida.
Seja feliz hoje e sempre!
Um grande beijo.

Érica disse...

Ei querida Sil,
Amei, super, curti muito, interessante, inteligente, diferente, bombástico, em fim.... a cara nova do blog ficou linda!
Grande beijo,
Érica

fatima disse...

Silvania, concordo inteiramente com você. O sistema educacional vigente estimula os professores a passar a mão na cabeça dos alunos que são sempre considerados "coitadinhos". Só que a vida não passa a mão na cabeça de nonguém. Sinto cada vez mais dificuldades de lidar com os alunos que, na sua maioria, não sabem ouvir não. Eu trabalho em uma escola que ainda nã nos obriga a aprovar alunos desinteressados e relapsos. Mas mesmo assim, a realidade da sala de aula está cada vez mais estressante.É preciso amar muito a profissão para continuar insistindo. Um grande abraço, Fátima.

Rose disse...

Sil, sinto muito orgulho de você, é preciso manter o norte de nossos princípios, caso contrário, somos submergidas pelos interesses escusos de donos de escola, patrões, etc... Desejo que você consiga trabalhar em outra escola onde os princípios de ética sejam mais respeitados e os alunos tenham interesse em absorver os conhecimentos que você têm e quer partilhar com eles. Um grande beijo, Rose

Gabriel disse...

Querida e admirável professora,
Achei muito legal esse blog que tem como característica e foco a educação. Concordo que os professores não tem que "passar a mão na cabeça" dos alunos. Mas o problema que a maioria dos alunos não tiveram oportunidades de ter pais educadores ou que tiveram acesso a educação, asssim, sendo praticamente impossível passar para os filhos. Logo a educação dada na sala de aula é algo a longo prazo...é a interrupção de uma má educação para que as próximas gerações tenham acesso a essa importante ferramenta. E educar não é passar a mão ou se tornarem "pais", mas é a conscientização e uma visão privilegiada de seus mestres.
Eu, como filho de professora, vivenciei de perto o desgaste, e presenciei também como aluno que o professor além de ser um educador, é psicólogo, amigo...sendo assim carregando um fardo pesado demais. Por isso acho que investindo mais nessas pessoas, futuramente os educadores teriam menos problema em realizar o seu trabalho. E além disso, o profissional tem que lidar com alunos com baixa auto-estima, sem pespectiva de vida (em sua grande maioria escolas públicas), e mostrar que é possível reverter o quadro na qual ele se encontra.
E para finalizar gostaria de parabenizá-la por compartilhar matérias, visões de uma profissional na internet, pois até para usá-la é necessário educação rsrs...

Critiano Vieira disse...

Pois a chuva voltando da terra traz coisas do ar... Mas infelizmente a chuva está cada vez mais escassa e o chão árido tem feito com que a sede de conveniência dominem nossas escolas.

No mundo do tudo posso pois pago meus impostos, pago o colégio e pago não sei mais o que, os pais estão querendo se eximir do dever de ser pais. É como se, faço esse menino e dou pro mundo criar, e depois vou reclamar do governo por meu filho não ter conseguido aprender.

Infelizmente para ser pai/mãe não basta querer ter um filho, mas também aceitar as responsabilidades inerentes desse atributo maravilhoso mas árduo!

Suzana Gutierrez disse...

Oi Silvania

Conheci o teu blog pelos caminhos colaborativos da web :) Gostei do que li aqui e, assim, te convido para uma pequena comunidade de educadores, a Edublogosfera.

Temos uma lista de discussão: http://groups.google.com/group/edublogosfera , que reúne alguns educadores que gostam de pensar a educação.

abraço

Suzana Gutierrez
http://www.gutierrez.pro.br/